15/06/2020 às 10h53 | 278 visualizações |

A FALSA DICOTOMIA ENTRE ECONOMIA E SAÚDE

 

 

A pandemia do novo coronavírus lançou sérios desafios ao mundo, dentre eles o esforço de conter o vírus e evitar uma crise econômica. No Brasil, as respostas esboçadas tem caminhado em direção a um (quarentena geral) ou a outro pólo (retorno da atividade econômica). Este por recomendação de parcela de economistas, aquele por recomendação médica. Emerge, então, uma falsa dicotomia, como se a saúde e a economia não tivessem ligação.

Deve-se olhar para a questão central que, nesse quadro, ergue-se: O PAPEL DO ESTADO. 

Nos últimos anos ocorreu um forte ataque ao Estado, demonizando-o. No Brasil, isso foi muito intenso. É notório palavras como “Estado inchado”, “corrupto”, “ineficiente”, etc. (poderíamos multiplicar os exemplos!). Esse discurso se tornou hegemônico no país a tal ponto que, após as eleições de 2018, o grupo que se elegeu e que se encontra na direção (ou não !) do país vem canalizando esforços no sentido de diminuir o tamanho do Estado, buscando instituir o “Estado Mínimo”. Em outros termos, esforça-se em desmantelar o “Estado de Bem-Estar Social”, Keynesiano, para implantar o “Estado Mínimo”, neoliberal. O Estado interventor, regulador e provedor deve sair de cena em prol de um Estado que assegure o livre-mercado. 

Com a chegada da pandemia ao Brasil, ficou evidente o (des)governo, mas, para além disso, o desencontro entre as orientações do Ministério da Saúde e as ações (lentas e em grande medida equivocadas e atrapalhadas) do Ministério da Fazenda. Este, comandado por Paulo Guedes, que, pela perspectiva “neoliberal selvagem”, acaba não conseguindo conceber ações que não estejam na agenda neoliberal (daí a demora e os equívocos), está praticamente paralisado, com outros personagens (governadores, prefeitos, parlamento...) assumindo o protagonismo.

Neste momento, o “Estado Mínimo” expõe as suas limitações. As soluções apontadas por muitos economistas, inclusive alguns liberais, é que o Estado deve transferir renda, amplificar  sua rede de proteção social, intervir na economia (fornecendo créditos, regulando preços, garantido salários...) e ampliar seus serviços (sobretudo na saúde). Ou seja, alargar o seu raio de ação visando mitigar os efeitos da pandemia na economia e, da mesma forma, conter o coronavírus, garantindo a manutenção das famílias (por força da quarentena) e protegendo vidas (fomentando as pesquisas e assegurando leitos no SUS). Nesse sentido, não há dicotomia. Ela se mostra falsa. 

Portanto, a questão central situa-se no papel do Estado. E ele tem como financiar as suas ações neste momento, pois pode suspender o pagamento dos juros da dívida pública, pode taxar os mais ricos, utilizar suas reservas, etc... No fim das contas, os limites do “Estado Mínimo” estão expostos em praça pública, assim como a “ditadura do capital” - infelizmente já introjetada e naturalizada por muitos. É um absurdo aceitar e defender a morte de uma parcela da população em nome de uma perspectiva econômica neoliberal. Devemos então nos perguntar: para onde a humanidade está caminhando? 

 

Luciano Everton Costa Teles.

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